quarta-feira, 29 de julho de 2009


Está na Bíblia: Jacó lutou com Deus durante toda uma noite, o venceu e mudou de nome: "Você já não se chamará Jacó, mas Israel, porque você lutou com Deus e com homens, e você venceu". Gên. 32,19, confere? Mas que Deus é esse que foi submetido pelo homem, abençoando-o à força, debaixo de um mata-leão ou chave de braço ("Não o soltarei enquanto não me abençoar" - Gên. 32, 27)?

Para melhor responder essa pergunta, creio que devemos ler, pelo menos, o capítulo 27 do livro Gêneses e só então ler o 32. Um resuminho, porém, talvez supra essa necessidade. Bem, Jacó, caçula, passou o irmão no fundo da agulha, roubou-lhe a bençãos que Abraão devia dar ao primogênito, Esaú. Após isso, fugindo da ira do irmão, saiu das cercanias onde nascera, indo parar nas terras de Labão, onde casou-se com Lia e Raquel, além de enricar por aqueles lados de lá, orientais, essas coisas... mas teve de voltar, por conta de umas confusões, para as terras de seu falecido pai, então pertencentes ao irmão garfado. Durante essa vinda, Jacó teve medo ou teve culpa, ou ambos: reencontrar o irmão que queria trucidá-lo, reencontrar seu pecado... Mandou presentes ao irmão e foi dormir. Nessa noite, lutou com Deus.

Não me resta outra conclusão: o Deus de Jacó é o Deus da culpa e do medo. Jacó lutou com seus medo e culpa durante toda a noite vencendo-os antes da chegada da aurora. Jacó, contudo, foi um mal vencedor. Poderia ter estrangulado seu inimigo, cortado-lhe o pescoço, enfim, livrado-se de um ser que, por ser maior e mais forte, faz questão de cercear a liberdade daqueles que o reconhecem. Mas não, Jacó pediu-Lhe a benção. Pediu Àquilo que ele vencera que o acompanhasse, a si e a seus filhos, e o transformasse numa grande nação: nação da culpa e do medo, que escolheu ser vítima de castigos por desobediências ao submeter-se ao Deus que havia derrotado.


Jacó poderia ter andado por si só, sem pedir arrego a Ninguém, mas preferiu aceitar o título de Israel. Escravidão ou domínio do Egito, assírios, Babilônia, Pérsia, gregos, Roma... Tudo, porque Deus estava infeliz pelo descumprimento de um contrato. Jacó acovardou-se, não acorrentou e enterrou Javé, como fez Zeus a Cronos, que trouxe vida e banquetes a seus irmãos, filhos e mulheres.

O Deus judeu, tal qual Cronos ou um pecuarista, oprime e devora aos poucos os seus filhos, o seu rebanho, que, por sua vez, não se rebela. “Ah, mas Ele nos criou e amou tanto que nos fez à sua imagem e semelhança?” Ora, ora: criou por quê? Talvez por que não se bastava e sua solidão fosse terrivelmente enfadonha, ou por que queria se mostrar: "Viu, Eu fiz tudo, Eu sou o Cara!". Um Deus que, para matar o tempo, criou uma enorme paciência para si, chamada universo. E que amor é esse? Sujeitar, exigir reconhecimento e rapa-pés, impingir castigos, matar de fome, de ferro e pestes. Não sei, não, mas o que podemos de fazer de melhor por esse Deus é não acreditarmos nele, mesmo porque se é que houve um contrato, foi há muito e Jacó quem o aceitou.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Vende-se uma lapiseira.

Lápis, porque não lapiseira? Foi o que me perguntou uma amiga ao me ver estudando e rabiscando nas margens do livro com o antiquado objeto enquanto, num porta canetas, uma lapiseira novinha, bonita, anatômica, descansava.

O lápis, por conta da pintura que recebe, é escorregadio, além de duro ao tato dos dedos. Quando vai ficando pequenininho, após sucessivas sessões de apontamento, fica ainda mais desconfortável de segurar. Tem mais, a ponta quebra, engrossa e ai temos de parar e aparar. A lapiseira, não: ponta uniforme, mina cirúrgica, gastou ou quebrou, basta um ou dois cliques na parte superior e pronto! Sem perdas de tempo, sem maior envolvimento com o instrumento de trabalho, altamente profissional. Além disso, o conforto de um corpo emborrachado, agradável entre os dedos, dotada de frisos antiderrapantes, para maior firmeza na escrita.

Pode ser impressão minha, mas o lápis me dá a ideia de envolvimento com o que estou fazendo, de maior pessoalidade. Um lápis muda com o progresso de quem usa (a curto, médio e longo prazo), já a lapiseira é sempre a mesma.

Se as anotações à lápis forem rápidas, aquela ponta fininha que você fez, ao cabo de não mais que duas ou três linhas, já está mudada, suas arestas já estão arredondadas e se quiser manter o padrão da letra, vai ter de girá-lo entre os dedos, buscar aquela protuberanciazinha que ainda não sofreu os efeitos abrasivos do papel ou, então, rabisca-se num papel para rascunho ou na mesa, mesmo, até fazer com que o lápis e você entre num consenso. Interage-se, dialoga-se com o lápis, influímos ou deixamo-nos influir pelo lápis.

O roteiro de estudos e anotações é longo? Mais visível é a interação. A ponta gasta à exaustão ou se quebra, aponta-se: canivete, estilete, faca de cozinha e até apontadores. E essa ordem é importante. Não é todo mundo que tem um canivete, mas quem tem cria um certo apreço pelo objeto, convive com ele (assim como convive com o lápis) sabe suas manias e domina a precisão de seu corte, amola-o pessoalmente, e ao usá-lo para apontar o lápis põe mais de si na operação, torna-se mais íntimo do lápis. Apontar com um estilete é um pouco diferente, ninguém anda com um estilete no bolso, o amola ou cuida para que ele dure dez, vinte anos, o estilete já vem pronto para usar e há pouco ou nada a fazer para que ele se pareça conosco e se ficou cego, simplemente joga-se fora, entretanto, assim como se dá com o canivete, com o estilete dá para se dosar a força da mão sobre a madeira para buscar, artezanalmente, a ponta perfeita, ou melhor, a ponta mais próxima daquilo que cada um tem por ponta de lapis ideal. Faca de cozinha (quanto maior pior) já é brutalidade, não há como dominar a pressão da lâmina sobre o lápis e você arrancará pedaços no coitado e a relação irá para o ódio e incompreensão, mas pelo menos houve uma relação. Apontador é querer fazer o lápis virar lapiseira: põe o cara ali e roda até sair uma ponta padrão, igual a mil outras pontas.

Bem, mas ao final do estudo (ainda que se use faca e apontadores), o lápis, assim como você, está diferente, uma ou outra mordida, a camada de tinta nuns pontos desbotada pelo suor, noutros descascada por um ou outro tombo. Está menor? Creio que não, transformou-se. Tornou-se aquilo que você escreveu e parte de você, aquilo que você apreendeu. Tenho ansensação que a diminuição de um lápis por mim usado é diretamente proporcional ao meu crescimento, que cada lápis que usei me foi entrando pelos dedos a dentro e hoje faz parte de mim.

sábado, 25 de julho de 2009

Entusiasta da própria competência.

Henrique Bernardes, nomeado por indicação de Sarney a um cargo no Senado por ser namorado de sua neta, disse que não tem do que se envergonhar, vez que considera-se competente para a função que desempenha, cumprindo seus compromissos junto à casa, sendo um privilégio para o Senado ter um funcionário como ele. Isso eu li n"O Globo".

Como toda e qualquer função, a exercida por Henrique é importante: responsável por atender telefone, recepcionar pessoas e emitir recibos. Secretária é a profissão de minha amiga Sônia, de Viçosa, que não é formada em física pela UNB, nem tem pós-graduação em contabilidade e economia (aliás, só tem o ensino médio), mas faz muitíssimo bem e com extremo desvelo esse serviço, prestado há cerca de 10 anos no mais confiável escritório de advocacia que conheço, ganhado com isso quinhentos e poucos reais mês.

Ora, o rapaz não foi contratado por ser competente, mas sim por uma indicação do conquistador do Amapá. O menino se esquece que a Constituição Federal prevê princípios como moralidade e impessoalidade, além de acesso aos cargos públicos via concurso, salvo algumas justificáveis exceções.

Ainda, contudo, que seja o namorado ou ex-namorado da neta de Sarney realmente competente como insinua ser, a competência não é tudo para validar a ocupação de um cargo público: há trâmites legais a serem observados para que os princípios da administração pública (inclusive o da publicidade) sejam atendidos, valendo frisar que competência é obrigação de todo e qualquer pessoa que se disponha a realizar uma função, quer na iniciativa privada, quer no setor público, não sendo motivos para jactâncias e justificativas para nomeações nepostistas, por atos administrativos secretos e/ou imorais.

Mas vamos na pilha: Em que seria competente o Henrique? a) em física? b) em contabilidade ou economia? c) como namorado de neta de senador? d) Como secretária?
Não é pesquisador do CNPQ em dá aulas em faculdades de física. Não exerce qualquer função ligada a formação de pós-graduado. Segundo li nos jornais não é mais namorado, mas ex. Como secretária (com salário de R$2.700,oo) foi elogiado pelo seu chefe.