segunda-feira, 27 de julho de 2009

Vende-se uma lapiseira.

Lápis, porque não lapiseira? Foi o que me perguntou uma amiga ao me ver estudando e rabiscando nas margens do livro com o antiquado objeto enquanto, num porta canetas, uma lapiseira novinha, bonita, anatômica, descansava.

O lápis, por conta da pintura que recebe, é escorregadio, além de duro ao tato dos dedos. Quando vai ficando pequenininho, após sucessivas sessões de apontamento, fica ainda mais desconfortável de segurar. Tem mais, a ponta quebra, engrossa e ai temos de parar e aparar. A lapiseira, não: ponta uniforme, mina cirúrgica, gastou ou quebrou, basta um ou dois cliques na parte superior e pronto! Sem perdas de tempo, sem maior envolvimento com o instrumento de trabalho, altamente profissional. Além disso, o conforto de um corpo emborrachado, agradável entre os dedos, dotada de frisos antiderrapantes, para maior firmeza na escrita.

Pode ser impressão minha, mas o lápis me dá a ideia de envolvimento com o que estou fazendo, de maior pessoalidade. Um lápis muda com o progresso de quem usa (a curto, médio e longo prazo), já a lapiseira é sempre a mesma.

Se as anotações à lápis forem rápidas, aquela ponta fininha que você fez, ao cabo de não mais que duas ou três linhas, já está mudada, suas arestas já estão arredondadas e se quiser manter o padrão da letra, vai ter de girá-lo entre os dedos, buscar aquela protuberanciazinha que ainda não sofreu os efeitos abrasivos do papel ou, então, rabisca-se num papel para rascunho ou na mesa, mesmo, até fazer com que o lápis e você entre num consenso. Interage-se, dialoga-se com o lápis, influímos ou deixamo-nos influir pelo lápis.

O roteiro de estudos e anotações é longo? Mais visível é a interação. A ponta gasta à exaustão ou se quebra, aponta-se: canivete, estilete, faca de cozinha e até apontadores. E essa ordem é importante. Não é todo mundo que tem um canivete, mas quem tem cria um certo apreço pelo objeto, convive com ele (assim como convive com o lápis) sabe suas manias e domina a precisão de seu corte, amola-o pessoalmente, e ao usá-lo para apontar o lápis põe mais de si na operação, torna-se mais íntimo do lápis. Apontar com um estilete é um pouco diferente, ninguém anda com um estilete no bolso, o amola ou cuida para que ele dure dez, vinte anos, o estilete já vem pronto para usar e há pouco ou nada a fazer para que ele se pareça conosco e se ficou cego, simplemente joga-se fora, entretanto, assim como se dá com o canivete, com o estilete dá para se dosar a força da mão sobre a madeira para buscar, artezanalmente, a ponta perfeita, ou melhor, a ponta mais próxima daquilo que cada um tem por ponta de lapis ideal. Faca de cozinha (quanto maior pior) já é brutalidade, não há como dominar a pressão da lâmina sobre o lápis e você arrancará pedaços no coitado e a relação irá para o ódio e incompreensão, mas pelo menos houve uma relação. Apontador é querer fazer o lápis virar lapiseira: põe o cara ali e roda até sair uma ponta padrão, igual a mil outras pontas.

Bem, mas ao final do estudo (ainda que se use faca e apontadores), o lápis, assim como você, está diferente, uma ou outra mordida, a camada de tinta nuns pontos desbotada pelo suor, noutros descascada por um ou outro tombo. Está menor? Creio que não, transformou-se. Tornou-se aquilo que você escreveu e parte de você, aquilo que você apreendeu. Tenho ansensação que a diminuição de um lápis por mim usado é diretamente proporcional ao meu crescimento, que cada lápis que usei me foi entrando pelos dedos a dentro e hoje faz parte de mim.

Um comentário:

  1. Aí vai o grande brochado das redações dos colégios do interior, como diriam nossas profiessorinhas, vejam que redação maravilhosa: "O que o lápis ou a lapiseira (0,5 , 0,7) escreveu a borracha apagou".

    A idéia que se tem ao ver uma folha trucidada pela borracha é que o lápis deixa sempre os seus rastros, logo se percebe que naquele papel passou o lápis, lá estão as sombras, seja papel novo ou velho, seja qual o tipo de borracha sempre vai ficar a sombra, mesmo que se tenha apagado para escrever outra coisa (ahhh!!! Drumond.

    Velho seu texto está bastante sensorial, gostei muito.

    Um abraço.

    ass: Artrópode

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