Estive fora uns dias... e volto com uma postagem que não é minha. Fazer o que: aulas em Carangola e Muriaé, querendo estudar para um concurso que não sei se farei, corrigindo trabalho de curso de seis orientandos (fora as bancas), invejando o última postagem do Prof. Ramon no blog http://www.marmitafilosofica.blogspot.com/. Não é mole não, sô. Bem, segue um texto que recebi via e-mail, que tenta explicar como se governa nesse país.
Até!
UDN, PSD e PTB: com outros nomes, eles sobrevivem e disputam o poder no Brasil
publicada sexta, 21/08/2009 às 19:10 e atualizado sexta, 21/08/2009 às 20:19
http://www.rodrigovianna.com.br/plenos-poderes/udn-psd-e-ptb-com-outros-nomes-eles-sobrevivem-e-disputam-o-poder-no-brasil
Os leitores mais novos devem me achar um "tiozinho" meio chato - por causa dessa mania de falar em UDN e Getúlio Vargas, como metáforas para pensar em Lula e na oposição demo-tucana.Mas vou correr o risco, e insistir no tema. Vargas reunia PTB e PSD para enfrentar os corvos; Lula precisa fazer o mesmo porque a UDN vem babandoInspirei-me num belíssimo comentário do leitor Fernando Trindade a meu último texto - sobre Marina, Gil e a hipocrisia da nova UDN - http://www.rodrigovianna.com.br/plenos-poderes/gil-pra-marina-no-pv-ob-observando-hipocritas.Fernando disse: "(...) sem alianças Lula não teria sequer concluído o primeiro mandato. Esse foi o grande problema no pré-64 que levou ao golpe, o rompimento da aliança do PTB com o PSD. No Brasil, gostemos ou não, o centro fisiológico (que não é necessariamente corrupto, aliás) é o fiel da balança. Nos idos de 1963, quando o PSD passou para o lado da UDN, a esquerda ficou isolada e tivemos a tragédia do golpe. E o objetivo do PIG e seus aliados é exatamente descolar o centro fisiológico do Governo Lula para isolá-lo e derrotá-lo."Além de resumir bem a correlação de forças que levou ao golpe de 64 (não esqueçamos, claro, o peso da Guerra Fria e da CIA no episódio), o comentário fez-me concluir o seguinte: no Brasil continuam a existir só três partidos - UDN, PSD e PTB *.No pré-64, PTB e PSD jogavam juntos. A UDN, isolada (mas dominante nos grandes jornais, como hoje), só chegou ao poder em 61 - quando capturou Janio Quadros e pensou que governaria com ele. Janio tinha outros planos. Numa noite de agosto, tomou um porre maior do que o habitual, e renunciou.O poder voltou ao eixo PSD-PTB com Jango (lembremos que o eleitor, naquela época, podia votar no presidente de uma chapa, e no vice de outra; na eleição, Jango não era vice de Janio, mas teve mais votos, e virou o vice-presidente eleito).Pois bem. Parte do sucesso do golpe de 64, como resume bem o Fernando Trindade, explica-se pelo fato de a UDN ter conseguido atrair parte do PSD para o barco do golpismo.Avancemos 30, 40 anos na história...No período recente, pós-ditadura, a neo-UDN mostrou-se mais competente nas alianças. A UDN (PSDB-PFL) conseguiu atrair o PSD (PMDB) para o governo FHC. O PTB (PT e as esquerdas) ficou isolado.Em 2002, o PTB (PT e as esquerdas) atraíram o PSD (PMDB e outros pequenos partidos centristas). Foi o que garantiu a vitória e o suporte ao governo Lula. As vestais da ultra-esquerda não tinham entendido isso ainda?Pois bem: toda a estratégia serrista agora consiste em quebrar essa aliança. Por isso o "escândalo Sarney". Por isso vale pancada na Petrobrás (a nova UDN, como a antiga, não gosta muito do Brasil; avha "nacionalismo" um troço meio antiquado).Sarney, no pré-64, era UDN. Hoje, está no neo-PSD (PMDB).Serra, que no pré-64 estava mais próximo do PTB, hoje comanda a neo-UDN.Lula sabe que precisa da velha dobradinha PTB-PSD pra ganhar em 2010. À nova UDN restará bater às portas da mídia, como os corvos de Carlos Lacerda no pré-64 batiam às portas dos quartéis.Hoje, a quartelada pode vir da imprensa! É ali que a UDN tucana tem força.Lula e o PT precisam se livrar dos restos de UDN que ainda se prendem ao partido.O PT precisa terminar sua transição, assumindo-se como um partido social-democrata à brasileira. Ou seja: o PT precisa assumir que é um PTB getulista, renovado.Alguns, na extrema-esquerda, não gostam disso.Eu não me importo. Primeiro, por razões pessoais: sempre fui um brizolista/trabalhista - "obrigado" a votar no PT por morar em São Paulo. Segundo, por razões políticas: olho a correlação de forças e não vejo outra saída no Brasil.Outros, com estômago frágil, sentem-se enjoados por ver o PT perto de Sarney. O Brasil exige estômago forte!Até porque a UDN - como sempre - está babando de raiva.Se o PSD correr pro lado deles, o PTB será esmagado.Se estiverem juntos (e ainda mais com a economia crescendo), PTB e PSD serão imbatíveis em 2010, como sempre!JK e Vargas sabiam disso. Lula também sabe.---* evidentemente que, do ponto de vista histórico - e historigráfico - não faz sentido dizer que UDN, PSD e PTB são os únicos partidos do Brasil. Trata-se de "licença jornalística". Simples exercício interpretativo, baseado em nossa história recente.
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quarta-feira, 26 de agosto de 2009
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Vlipifri febres ou febre taurede
Com estetoscópio rosa e azul decorado com adesivos de papel em forma de coraçõezinhos e ambulâncias, touca e colete escritos “enfermeira”, a médica começa a examinar-me.
- Que que foi, moço?
- Estou com dor de cabeça, Ana.
- Ana, não! Doutora, tio.
- ... uma dor de cabeça, doutora. Eu acho que é porque comi muito “pasta aglio olio” – quis falar difícil para impressionar a doutorinha de quatro anos de idade.
- Deixa eu ver...
Ouve o meu coração, meus pulmões e minha testa com o estetoscópio. Coloca um termômetro clínico verde em entre os elos da pulseira do meu relógio e depois entre os dedos do meu pé, me dizendo para eu só tirar quando ouvisse trim-trim. Enquanto aguardo o sinal sonoro, a jovem doutora belisca os dedos de meu outro pé com um instrumento médico feito em plástico vermelho que imagino ser um fórceps miniatura ou uma tenaz para pegar instrumentos quentes, recém esterilizados.
- Trim-trim..., diz a doutora com boca de ventriloco.
- Aqui está doutora – digo devolvendo o termômetro.
- Quarenta e nove sete. Você vai ter de tomar uma injeção muito doída, viu? Mas não vai doer nada, é só uma formiguinha.
Como assim, injeção doída que não dói? Tenho medo de agulhas, não tenho vergonha de admitir. E mais: qual o diagnóstico? Perco a timidez, venço o medo da autoridade que todo jaleco branco impõe e pergunto:
- Mas o que é que eu tenho, doutora? Não é só vir aplicando injeção assim, não! – protesto indignado.
- Você está doente e tem de tomar injeção.
- Doente eu sei: comi muito, estou com dor de barriga e vim aqui – tento ganhar tempo diante de uma rombuda agulha de plástico: – Eu quero saber, doutora, qual a minha doença, o nome do mal que me aflige.
- Viplifri febres – diz a médica com as mãos na cintura, como olhos de censura por minha impertinência diante de todos os símbolos do poder de curar que trazia dependurados em si.
- O que mesmo, doutora? – retruquei, já que não tenho medo de cara feia (pelo menos quando de autoria de minha sobrinha de quatro anos).
- Vripifré... Vipifi... Vi... É febre taurede, fe-bre-tau-re-de. Entendeu? Não vou falar de novo, viu: febre tau-re-de. Agora espera que eu vou lavar a injeção.
Lavar a injeção que o cachorro acabara de lamber e aplicar em mim? De jeito nenhum!
- Doutora, mas o que essa doença faz com a gente?
- É... dor no dedo – responde hesitante sem me olhar nos olhos, mas com voz irritada diante de tanta perguntação.
Não posso aceitar, trata-se, certamente, de uma charlatã. Aposto que nunca ouviu falar em Hipócrates ou penicilina. Não! Tenho o direito de resistir a essa agulha rombuda, não vazada e da espessura de um palito de fósforos. Não pense ela que vai me embrulhar com esse nome difícil para uma tal febre. Onde já se viu, come-se macarrão e tem-se uma febre que dá dor no dedo? E ela ali, lavando a seringa com água de mentirinha, fazendo xiiiiii com a boca.
- Doutora, está errado! O que tem haver comer muito e ter febre que dá dor no dedo? Eu acho que não precisa de injeção, não. Não é só...
- Não é só, nada! Ninguém mandou você comer pasta! Pasta é para colocar na escova e escovar dentes. Vai ter de tomar injeção, sim!
Segurando a seringa vermelha de agulha amarela, agarra o meu braço e manda ver.
- Ai, não precisa apertar tanto Ana, vai machucar o titio. Ai, ai!... assim você quebra o seu brinquedo...
- Ana, não, titio: doutora! E dói só em desobediente, que não sabe tomar injeção – diz com cara de brava, desentortando a agulha amarela, nem se dando conta da marca que deixou no meu braço, mas logo abrindo um sorriso, quase gargalhando, ao chamar a próxima cliente a deitar-se no tapete da sala: - Vó, agora é sua vez.
- Que que foi, moço?
- Estou com dor de cabeça, Ana.
- Ana, não! Doutora, tio.
- ... uma dor de cabeça, doutora. Eu acho que é porque comi muito “pasta aglio olio” – quis falar difícil para impressionar a doutorinha de quatro anos de idade.
- Deixa eu ver...
Ouve o meu coração, meus pulmões e minha testa com o estetoscópio. Coloca um termômetro clínico verde em entre os elos da pulseira do meu relógio e depois entre os dedos do meu pé, me dizendo para eu só tirar quando ouvisse trim-trim. Enquanto aguardo o sinal sonoro, a jovem doutora belisca os dedos de meu outro pé com um instrumento médico feito em plástico vermelho que imagino ser um fórceps miniatura ou uma tenaz para pegar instrumentos quentes, recém esterilizados.
- Trim-trim..., diz a doutora com boca de ventriloco.
- Aqui está doutora – digo devolvendo o termômetro.
- Quarenta e nove sete. Você vai ter de tomar uma injeção muito doída, viu? Mas não vai doer nada, é só uma formiguinha.
Como assim, injeção doída que não dói? Tenho medo de agulhas, não tenho vergonha de admitir. E mais: qual o diagnóstico? Perco a timidez, venço o medo da autoridade que todo jaleco branco impõe e pergunto:
- Mas o que é que eu tenho, doutora? Não é só vir aplicando injeção assim, não! – protesto indignado.
- Você está doente e tem de tomar injeção.
- Doente eu sei: comi muito, estou com dor de barriga e vim aqui – tento ganhar tempo diante de uma rombuda agulha de plástico: – Eu quero saber, doutora, qual a minha doença, o nome do mal que me aflige.
- Viplifri febres – diz a médica com as mãos na cintura, como olhos de censura por minha impertinência diante de todos os símbolos do poder de curar que trazia dependurados em si.
- O que mesmo, doutora? – retruquei, já que não tenho medo de cara feia (pelo menos quando de autoria de minha sobrinha de quatro anos).
- Vripifré... Vipifi... Vi... É febre taurede, fe-bre-tau-re-de. Entendeu? Não vou falar de novo, viu: febre tau-re-de. Agora espera que eu vou lavar a injeção.
Lavar a injeção que o cachorro acabara de lamber e aplicar em mim? De jeito nenhum!
- Doutora, mas o que essa doença faz com a gente?
- É... dor no dedo – responde hesitante sem me olhar nos olhos, mas com voz irritada diante de tanta perguntação.
Não posso aceitar, trata-se, certamente, de uma charlatã. Aposto que nunca ouviu falar em Hipócrates ou penicilina. Não! Tenho o direito de resistir a essa agulha rombuda, não vazada e da espessura de um palito de fósforos. Não pense ela que vai me embrulhar com esse nome difícil para uma tal febre. Onde já se viu, come-se macarrão e tem-se uma febre que dá dor no dedo? E ela ali, lavando a seringa com água de mentirinha, fazendo xiiiiii com a boca.
- Doutora, está errado! O que tem haver comer muito e ter febre que dá dor no dedo? Eu acho que não precisa de injeção, não. Não é só...
- Não é só, nada! Ninguém mandou você comer pasta! Pasta é para colocar na escova e escovar dentes. Vai ter de tomar injeção, sim!
Segurando a seringa vermelha de agulha amarela, agarra o meu braço e manda ver.
- Ai, não precisa apertar tanto Ana, vai machucar o titio. Ai, ai!... assim você quebra o seu brinquedo...
- Ana, não, titio: doutora! E dói só em desobediente, que não sabe tomar injeção – diz com cara de brava, desentortando a agulha amarela, nem se dando conta da marca que deixou no meu braço, mas logo abrindo um sorriso, quase gargalhando, ao chamar a próxima cliente a deitar-se no tapete da sala: - Vó, agora é sua vez.
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Sobre votos e parlamentos

A tal crise do Senado desperta em mim uma questão que há muito discuto nas mesas de botequim: qual o valor de um parlamento, da democracia representativa? Essa questão é atual e universal, vez que não é só o Brasil, hoje, que enfrenta problemas com o Legislativo: na Inglaterra há um sério problema com a moralidade dos membros do parlamento, tendo sido aprovado recentemente leis para punir parlamentares que faltarem com respeito ao zelo com a coisa pública; o presidente norte-americano resiste a instaurar investigações envolvendo o seu antecessor, J . W. Bush, pois teme dificuldades em aprovar seu pacote de medidas e reformas; o primeiro ministro italiano, esse é uma piada (de mau gosto). Esses, contudo, são só exemplos, para puxar assunto, não pretendo dar pitaco na política internacional. A que interessa (pelo menos a mim).
Em tese, cada cidadão teria uma partícula de poder que, por meio do voto, seria canalizado a seus representantes nos cargos eletivos. Imaginemos um mundo perfeito: todos os candidatos falam a verdade, são coerentes com seus discursos; toda a população entende com perfeição o que é dito pelos primeiros, não sendo influenciada pela quantidade de dinheiro lançada na campanha, pelo tempo de exposição na mídia, pela compra de votos e por aí vai. Enfim, tudo nos conformes. Ainda assim, é provável, que só uma minúscula parcela da população encontrasse aquele candidato que representasse com exatidão os seus anseios. Após eleitos, contudo, esses candidatos ideais – que já trazem certa dissonância com seus eleitores – não vão simplesmente fazer leis de acordo com seu discurso, mas sim digladiar com outros tantos, de sorte que seus valores e propostas, que justificaram o voto que lhe deram, serão processados, peneirados, cozidos, recosidos e guardarão lá alguma característica daquilo que o parlamentar propôs em campanha; talvez só um cheiro, quase nenhuma substância daquilo que o eleitor escolheu, que já era diferente, como vimos, daquilo que ele realmente queria. Enfim, a democracia representativa, funcionando bem, deixa a desejar e gera, talvez, uma grande legião de insatisfeitos.
Em tese, cada cidadão teria uma partícula de poder que, por meio do voto, seria canalizado a seus representantes nos cargos eletivos. Imaginemos um mundo perfeito: todos os candidatos falam a verdade, são coerentes com seus discursos; toda a população entende com perfeição o que é dito pelos primeiros, não sendo influenciada pela quantidade de dinheiro lançada na campanha, pelo tempo de exposição na mídia, pela compra de votos e por aí vai. Enfim, tudo nos conformes. Ainda assim, é provável, que só uma minúscula parcela da população encontrasse aquele candidato que representasse com exatidão os seus anseios. Após eleitos, contudo, esses candidatos ideais – que já trazem certa dissonância com seus eleitores – não vão simplesmente fazer leis de acordo com seu discurso, mas sim digladiar com outros tantos, de sorte que seus valores e propostas, que justificaram o voto que lhe deram, serão processados, peneirados, cozidos, recosidos e guardarão lá alguma característica daquilo que o parlamentar propôs em campanha; talvez só um cheiro, quase nenhuma substância daquilo que o eleitor escolheu, que já era diferente, como vimos, daquilo que ele realmente queria. Enfim, a democracia representativa, funcionando bem, deixa a desejar e gera, talvez, uma grande legião de insatisfeitos.
Não estamos, todavia, no melhor dos mundos (nem nós, nem ninguém). Se um sistema representativo em tese perfeito gera um resultado fora do esperado. Se as câmaras ideais são câmeras com lentes desfocadas que geram um retrato baço e por vezes irreconhecível, imagine as de fato. Ora, sabemos que os candidatos apresentam um discurso genérico e demagógico, que há ruídos na comunicação, que o poder econômico influi diretamente no resultado de uma campanha eleitoral, que é o publicitário e não as propostas que angariam o maior número de votos, que os interesses defendidos em plenário são, na maioria das vezes, não o dos eleitores, mas de grupos financiadores de campanhas...
Sabemos mais: que as discuções relativas a questões da política financeira, da distribuição de recursos atendem a critérios políticos, que quem governa realmente são os tecnocratas que não receberam o voto de ninguém, que as discuções travadas pelo legislativo, em boa parte das vezes, não são compreensíveis para o homem médio brasileiro.
Enfim, o que esperar de um sistema desses?
Não é preciso esperar nada, o resultado está ai: nepotismo (direto e cruzado), verborragia collorida, passagens para chegados, funcionários em balneários europeus, chantagens, lobby, imoralidade... Os jornais, diariamente, vêm trazendo cartas de inúmeros leitores questionando a necessidade de um senado e desejando sua extinção. Essa talvez seja a grande vontade de todo o povo que bem ou mal tenha se informado sobre o que se passa nas duas grandes fábricas de leis, negociatas e moções. Será que Morales, Castro, Chaves são realmente os grandes vilões da democracia? Não precisa responder, mas, pelo menos, pare para pensar. Aliás o que é democracia? Direito de votar ou direito de participar e ter acesso ao seu justo naco do todo?
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