quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Sobre votos e parlamentos




A tal crise do Senado desperta em mim uma questão que há muito discuto nas mesas de botequim: qual o valor de um parlamento, da democracia representativa? Essa questão é atual e universal, vez que não é só o Brasil, hoje, que enfrenta problemas com o Legislativo: na Inglaterra há um sério problema com a moralidade dos membros do parlamento, tendo sido aprovado recentemente leis para punir parlamentares que faltarem com respeito ao zelo com a coisa pública; o presidente norte-americano resiste a instaurar investigações envolvendo o seu antecessor, J . W. Bush, pois teme dificuldades em aprovar seu pacote de medidas e reformas; o primeiro ministro italiano, esse é uma piada (de mau gosto). Esses, contudo, são só exemplos, para puxar assunto, não pretendo dar pitaco na política internacional. A que interessa (pelo menos a mim).

Em tese, cada cidadão teria uma partícula de poder que, por meio do voto, seria canalizado a seus representantes nos cargos eletivos. Imaginemos um mundo perfeito: todos os candidatos falam a verdade, são coerentes com seus discursos; toda a população entende com perfeição o que é dito pelos primeiros, não sendo influenciada pela quantidade de dinheiro lançada na campanha, pelo tempo de exposição na mídia, pela compra de votos e por aí vai. Enfim, tudo nos conformes. Ainda assim, é provável, que só uma minúscula parcela da população encontrasse aquele candidato que representasse com exatidão os seus anseios. Após eleitos, contudo, esses candidatos ideais – que já trazem certa dissonância com seus eleitores – não vão simplesmente fazer leis de acordo com seu discurso, mas sim digladiar com outros tantos, de sorte que seus valores e propostas, que justificaram o voto que lhe deram, serão processados, peneirados, cozidos, recosidos e guardarão lá alguma característica daquilo que o parlamentar propôs em campanha; talvez só um cheiro, quase nenhuma substância daquilo que o eleitor escolheu, que já era diferente, como vimos, daquilo que ele realmente queria. Enfim, a democracia representativa, funcionando bem, deixa a desejar e gera, talvez, uma grande legião de insatisfeitos.
Não estamos, todavia, no melhor dos mundos (nem nós, nem ninguém). Se um sistema representativo em tese perfeito gera um resultado fora do esperado. Se as câmaras ideais são câmeras com lentes desfocadas que geram um retrato baço e por vezes irreconhecível, imagine as de fato. Ora, sabemos que os candidatos apresentam um discurso genérico e demagógico, que há ruídos na comunicação, que o poder econômico influi diretamente no resultado de uma campanha eleitoral, que é o publicitário e não as propostas que angariam o maior número de votos, que os interesses defendidos em plenário são, na maioria das vezes, não o dos eleitores, mas de grupos financiadores de campanhas...
Sabemos mais: que as discuções relativas a questões da política financeira, da distribuição de recursos atendem a critérios políticos, que quem governa realmente são os tecnocratas que não receberam o voto de ninguém, que as discuções travadas pelo legislativo, em boa parte das vezes, não são compreensíveis para o homem médio brasileiro.
Enfim, o que esperar de um sistema desses?
Não é preciso esperar nada, o resultado está ai: nepotismo (direto e cruzado), verborragia collorida, passagens para chegados, funcionários em balneários europeus, chantagens, lobby, imoralidade... Os jornais, diariamente, vêm trazendo cartas de inúmeros leitores questionando a necessidade de um senado e desejando sua extinção. Essa talvez seja a grande vontade de todo o povo que bem ou mal tenha se informado sobre o que se passa nas duas grandes fábricas de leis, negociatas e moções. Será que Morales, Castro, Chaves são realmente os grandes vilões da democracia? Não precisa responder, mas, pelo menos, pare para pensar. Aliás o que é democracia? Direito de votar ou direito de participar e ter acesso ao seu justo naco do todo?

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