quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Vlipifri febres ou febre taurede

Com estetoscópio rosa e azul decorado com adesivos de papel em forma de coraçõezinhos e ambulâncias, touca e colete escritos “enfermeira”, a médica começa a examinar-me.
- Que que foi, moço?
- Estou com dor de cabeça, Ana.
- Ana, não! Doutora, tio.
- ... uma dor de cabeça, doutora. Eu acho que é porque comi muito “pasta aglio olio” – quis falar difícil para impressionar a doutorinha de quatro anos de idade.
- Deixa eu ver...
Ouve o meu coração, meus pulmões e minha testa com o estetoscópio. Coloca um termômetro clínico verde em entre os elos da pulseira do meu relógio e depois entre os dedos do meu pé, me dizendo para eu só tirar quando ouvisse trim-trim. Enquanto aguardo o sinal sonoro, a jovem doutora belisca os dedos de meu outro pé com um instrumento médico feito em plástico vermelho que imagino ser um fórceps miniatura ou uma tenaz para pegar instrumentos quentes, recém esterilizados.
- Trim-trim..., diz a doutora com boca de ventriloco.
- Aqui está doutora – digo devolvendo o termômetro.
- Quarenta e nove sete. Você vai ter de tomar uma injeção muito doída, viu? Mas não vai doer nada, é só uma formiguinha.
Como assim, injeção doída que não dói? Tenho medo de agulhas, não tenho vergonha de admitir. E mais: qual o diagnóstico? Perco a timidez, venço o medo da autoridade que todo jaleco branco impõe e pergunto:
- Mas o que é que eu tenho, doutora? Não é só vir aplicando injeção assim, não! – protesto indignado.
- Você está doente e tem de tomar injeção.
- Doente eu sei: comi muito, estou com dor de barriga e vim aqui – tento ganhar tempo diante de uma rombuda agulha de plástico: – Eu quero saber, doutora, qual a minha doença, o nome do mal que me aflige.
- Viplifri febres – diz a médica com as mãos na cintura, como olhos de censura por minha impertinência diante de todos os símbolos do poder de curar que trazia dependurados em si.
- O que mesmo, doutora? – retruquei, já que não tenho medo de cara feia (pelo menos quando de autoria de minha sobrinha de quatro anos).
- Vripifré... Vipifi... Vi... É febre taurede, fe-bre-tau-re-de. Entendeu? Não vou falar de novo, viu: febre tau-re-de. Agora espera que eu vou lavar a injeção.
Lavar a injeção que o cachorro acabara de lamber e aplicar em mim? De jeito nenhum!
- Doutora, mas o que essa doença faz com a gente?
- É... dor no dedo – responde hesitante sem me olhar nos olhos, mas com voz irritada diante de tanta perguntação.
Não posso aceitar, trata-se, certamente, de uma charlatã. Aposto que nunca ouviu falar em Hipócrates ou penicilina. Não! Tenho o direito de resistir a essa agulha rombuda, não vazada e da espessura de um palito de fósforos. Não pense ela que vai me embrulhar com esse nome difícil para uma tal febre. Onde já se viu, come-se macarrão e tem-se uma febre que dá dor no dedo? E ela ali, lavando a seringa com água de mentirinha, fazendo xiiiiii com a boca.
- Doutora, está errado! O que tem haver comer muito e ter febre que dá dor no dedo? Eu acho que não precisa de injeção, não. Não é só...
- Não é só, nada! Ninguém mandou você comer pasta! Pasta é para colocar na escova e escovar dentes. Vai ter de tomar injeção, sim!
Segurando a seringa vermelha de agulha amarela, agarra o meu braço e manda ver.
- Ai, não precisa apertar tanto Ana, vai machucar o titio. Ai, ai!... assim você quebra o seu brinquedo...
- Ana, não, titio: doutora! E dói só em desobediente, que não sabe tomar injeção – diz com cara de brava, desentortando a agulha amarela, nem se dando conta da marca que deixou no meu braço, mas logo abrindo um sorriso, quase gargalhando, ao chamar a próxima cliente a deitar-se no tapete da sala: - Vó, agora é sua vez.

Um comentário:

  1. E só o titio Fernado mesmo para aguentar todas as aventuras de Ana Carolina.Juntos eles se divertem se encontrando no "mundo da imaginação".Juntos eles se entendem!

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